Pedro Nunes e o nónio

Um tempo houve em que português era sinónimo de sabedoria - Pedro Nunes, Abraão Zacuto, Garcia da Orta são disso emblema. Esse tempo foi curto, hoje temos outro triunvirato, o dos Zés-que-fazem-falta: José Sócrates, José (ex-Durão) Barroso, José Mourinho.

Se signo há para este nono episódio é o da sabedoria: todos ficam a saber muito sobre si e os outros, demais até. Átia fica a saber que Marco António já não a ama, Cesário fica a saber (suspeitar) que talvez o pai não seja o grande César, Voreno fica a saber que Marco António perdeu o juízo e que a Salomé/Cleópatra foi apenas o catalisador, Pulo fica a saber que Gaia matou Irene, Marco António fica a saber (Voreno dixit) que é doido, Posca fica a saber que Voreno só está com Marco António por um vício de estúpida (e estupenda) lealdade. Só falta mesmo os filhos de Voreno saberem a verdade sobre o pai: que é justo, bom, amantíssimo e que, last but not leastus, não matou a mãe, foi um acidente, porra.

À deriva insana dos dirigentes contrapõe-se o bom senso dos dois heróis plebeus (e, já agora, ficcionais). Tito Pulo até se revela um bom conselheiro de Octávio, numa bela cena no senado vazio, e Octávio escuta-o. Comovente: o líder em contacto directo com o povo. O mestre de cerimónias do circo em amena cavaqueira com o leão. Ou Michael e o seu martelo, como se diz em mafiês, também pode ser. O contraponto, ou complemento, é Voreno a dizer verdades como punhos a um Marco António travestido, pintalgado e drogado. Mete dó, Marco António. Lembra Salazar, Octávio.

A arte narrativa americana é sempre admirável, sobretudo nas séries de luxo, sempre muito “textbook”, redacçãoescolar no bom sentido da palavra redacçãoescolar. Uma pessoa perguntava-se: mas por que raio o Mémio ainda está vivo? E a resposta vem mais tarde - plantar e colher, filii, plantar e colher - quando, sem se saber como (quando não sabemos explicar uma coisa, passar por cima, diz a tábua 611 que D-us faxou a Maoisés), Mémio sai da jaula, dá uma paulada à traição no experientíssimo Pulo (tábua 611, ibid.), para este ser salvo in extremis pela loba e esta poder, enfim, confessar o que nós sabemos mas o bon garçon Tito Pulo ignorava: que Irene fora envenenada.

Gaia mostra-nos, moribunda, que nem sempre é por bem que confessamos os nossos crimes, às vezes é por sacanice. Ou, como no caso de Gaia, por pragmático e supersticioso egoísmo: “Desculpa, Pulo, meu amor, vais ficar chateado com o que te vou contar, mas não posso ir para o outro mundo com mentiras no meu coração. Némesis não me deixaria em paz.”

Moral da história: compreendes agora, querida, que é apenas por ser bom que te minto?

O Episódio Octávio

Ai ai… O Roma, o mores, por que me desapontas tanto? Sim, continuas com as belas frases. Sim, o episódio é redondo - abre com o discurso de Octávio sobre as mulheres, passa para a sua informação à núbil esponsal de que gosta de dar a sua chibatadazinha, “mas não te apoquentes, é apenas porque me excita”, vai até à Marcoantónia promessa à loura Átia de amor eterno para, numa elegante elipse (todas as elipses são elegantes porque são invisíveis, são o sonho de qualquer anoréctica), terminar, de forma clássica com a mais cantada história de paixão & luxúria loucas da antiguidade: “António”, diz Cléopatra, a sedutora vinda do espaço exterior; “Cléopatra”, diz Marco António, o soldado lascivo que finalmente vai aprender o que é sexo tântrico à série. (Nada de pessoal, Sting, mas tu ainda não estavas vivo naquela altura.)

Sim, este episódio tem um belo final: refiro-me não ao epílogo, a promessa de Egipto, mas à forma expedita como Tito Pulo trata do sarampo a Mémio Barzini, agarrando-lhe no braço, num gesto amistoso, dando em seguida uma cabeçada e concluindo com um beijo que arranca a língua ao energúmeno. Tito Pulo até este momento lembrava Sonny Corleone, o impetuoso mas estouvado James Caan - agora redime Luca Brazzi, vingando-o a anteriori de ter sido desleixadamente enviado para dormir com os peixinhos pelos velhacos Solozzo e Bruno Tattaglia. Tito Pulo, feroz e por cima (na arena da 1ª série estava deprimido e no 1º episódio estava bêbedo), é Luca Brazzi em todo o seu esplendor. Um magnífico monstro, uma máquina de matar com a qual ninguém faz farinha. (Haveria aqui um qualquer jogo de palavras mas perdi-me. Não faz mal.)

O que faz mal - e não havia necessidade - é ver o pastiche dos Gangues de Nova Iorque (Scorcese, 2002), do qual nem nos aperceberíamos por aí além se não fosse o rabo do gato de fora: a escrava que matou Irene a revelar-se uma mulher-guerreira, tão capaz de martelar e esventrar o vizinho como qualquer outro rufia - G.I. Joanae ou algo assim. Estou mesmo a ver no que vai dar o próximo episódio: ela amanceba-se com Tito Pulo mas um dia sem querer confessa o crime; Átia descobre o arranjinho de Marco António e convence Cláudio a atacar (isto provavelmente fica a fechar); Cláudio encesta.

Basic Instinct - o episódio sexto

Ah, os homens julgam que têm as Bombas na mão, quando são elas que os manipulam como títeres patéticos. Tal é a moral, arcaica mas eficaz, deste Roma: há um poder à superfície e há forças e fúrias e musas e sereias e tempestades nas profundezas. Volta, códido da vinci, que estás perdoado.

O arco narrativo, esse monstro sagrado das séries americanas, está em ponto de rebuçado, já a inclinar-se para o outro lado da abóbada. E soturno, soturno como os anéis de Soturno e as maldições de Servília. O amor, a guerra, a luxúria, o sexo deram lugar a algo mais visceral: se modelo houve para este episódio foi o de filmes como Basic Instinct (1992), com a camarada Sharon Stone, ou Atracção Fatal (1987), com a amiga Glenn Close - por sinal ambas as ameaças vindas de baixo (do púbis & das mulheres) protagonizadas pelo filho de Spartacus. Por sinal, Kirk Douglas foi, in illo tempore, muito mais hombre do que o pobre Michael algum dia pôde almejar ser.
se o episódio dois tinha introduzido a homossexualidade, algo que era banal na antiga Roma mas estivera ausente na primeira série (até na HBO o primeiro mandato é sempre mais tímido), este trouxe o sexo as suas piores versões: o negócio (Octávia e Marco António), a aniquilação (Posca e a jovem vítima da loucura de Átia), a vingança sádica (a escrava dominatrix e Pulo), o logro (a pobre filha de Voreno tornada sopeira na cantiga do bandido), O único desejo genuíno (e, já agora, mútuo) é sumariamente amputado: Graco e Octávia. E ainda não entrou em cena Cleópatra, que sozinha é toda uma Babilónia!

Entristece-me sentir que daqui para a frente é só desgraças. A I série ainda tinha umas alegrias aqui e ali, esta é toda ela um desfiar de horrores. E, quando estamos sossegados a ver uma cena bucólica, ou pelo caminho um Pulo cheio de bonomia vai matar Cícero (e pelo caminho apanhar uma mão cheia de pêssegos), como no episódio anterior, ou a sua perspectiva de ter um filho ameaça ruir. (Um filho que saiba que é seu, pois o de Cleópatra e César… foi cá do Pulo.)

Neste episódio volta também a ideia das mulheres mais como musas do que vítimas das maquinações dos homens. As manipulações de Átia, que conjura um casamento mas o resultado sai furado. A maldição de Servília, com subsequente suicídio, inspirando a frase do mês, saída da boca de Marco António, e que obviamente - neste homem tão sensual quão superficial - lhe vai inspirar a sua própria saída futura: “Uau, isto sim, é uma saída em pleno!” (Para quem não sabe português: “Now, that’s an exit!”)

Falta falar de dois crimes, também eles básicos e, até certo ponto, involuntários: a morte às suas mãos do irmão de Timão (fratricídio), e o desejo gelado pela mãe, único sinal de loucura no cerebral Octávio, ele que na série anterior tinha dormido com a irmã (incesto).

Ai ai… Eu próprio devo ser um bocado masoquista, senão teria juízo e ter-me-ia ficado pelo Prós & Contras. Igualmente soturno, mas muito menos perverso…

Roma II, II: V

Guerra. Bomba minha gentil que não explodiste, dás-te um nico desses e ó depois aborreces a violência? Aqui para nós, estás quase tão ironicamente contraditória como o Presidente palestiniano ao invectivar o Hamas após a versão Gaza do massacre de S. Valentim da noite de S. Barthélémy: “Não haverá diálogo com os golpistas, assassinos e terroristas”. Esta segunda série está prisioneira dos factos históricos, que lhe complicam o drama humano. Temos assim uma espécie de dois amores “que em nada são iguais”: de um lado os protagonistas reais (duplamente reais, como Marco António, Bruto, Octávio…) e a facção morena, que embora mais pequena (e mais pobre, e plebeia) pode ser ficcionada à maneira. Melancólica evidência: como o povo não está documentado, pode ser como nos der na gana inventado. O resultado não é demasiado feliz: os eventos históricos vão a despachar e consistem, para os argumentistas, na resolução de problemas - “sabemos que as mãos de Cícero vão aparecer pregadas à porta do Senado, a questão é como chegamos lá”; e a energia gasta aí é tanta que, cada vez mais, os maravilhosos Pulo e Voreno sucumbem, mecânicos, ao pastiche d’O Padrinho em que a série se está, com algum cabotinismo e muito desgosto meu, a tornar.

Agora prognósticos: sim, Átia está a descambar e a sua queda anunciada no episódio II - Cleópatra a dar-lhe um baile e, para citar o Casino de mestre Scorcese, “show her what is a real gangster” - está próxima. E Marco Paulo, perdão, Marco António, vai finalmente saber o que é uma cama a sério. Eu já por lá passei (Cleópatra, lembras-te dos bons tempos que passámos no Stones?) e posso dizer-te, meu amigo Marco, até vais ver pirâmides. A morte de Bruto vai trazer-nos Servília, numa última grande tirada. Talvez até mate Átia. Capazes disso são os argumentistas - é que Cleópatra tem de crescer, até se tornar quase a personagem central da segunda metade deste GodRoma part II. Quanto ao submundo dos Colégios e do Aventino, a ideia de demonstrar que os romanos antecederam a mafia usando, para atingir tal objectivo, o pastiche mais descarado do corpus de filmes de género é eficaz mas sonsa e preguiçosa. Como se alguém fosse agora fazer uma imitação d’Os Maias mas passada no século I e depois dizer que o Eça se limitou a copiar a nossa ideia. Penoso. E eu é que sofro, que saí a correr do jantar de campanha da Helena Roseta para vir a correr para casa…

(Continua)

Roma II, de IV capitulo

Há dias, numa troca de sms com a Bomba, veio à baila o medíocre jogo de palavras: “Eu não escrevo sobre Roma. Eu escravo do Amor.” Mal sabíamos nós que estávamos fazendo futurologia! Pois este episódio - cuartus, si error non esse - foi sob o signo do Amor, assim mesmo, com A maiúsculo. Amor de Voreno/Paterno, amor de Átia/Próprio, Amor de Pulo/Amigo, Amor de Octávia/Fraterno, Amor de Agripa/Ideal… Foi só amor, do princípio ao fim. Até o duvidoso Amor de Cícero à República e o bonito Amor da matrona do bordel-lar pelo torturado mas tão masculino Voreno. E Amor físico, ora aí está - consumação carnal clássica, numa posição bem clássica (de frente, deitadinhos, o home por cima) - outra coisa também não esperávamos do semper fidelis e sempre puritano Voreno. E Amor dos soldados por um Chefe que é cá dos seus - a deserção lépida do exército que ia atacar o insurrecto Marco António para sob as ordens deste servir. Não os censuro: ontem como hoje um general com genuína coragem física não devia ser coisa que se via todos os dias. E agora um segredo de Polichinelo, quase uma lapalissada: este Marco António é decalcado do hoje arquetípico Sonny Corleone (abençoado James Caan) naquele que foi a mãe de todos os Romas. Sim, esta nova série é muito mais Padrinho I do que Sopranos última série. Porque a sua história está prisioneira da História e, nesta, Octávio vence e limpa tudo. Se Marco António é James Caan, este jovem Octávio é Al Pacino. Meu jovem Michael, os teus inimigos mal sabem o que os espera. Única fraqueza de Octávio Corleone: o seu perturbado Amor pela mãe, quase a rondar o incesto (a irmã, de resto, já marchou). É a sua única fraqueza - esta jovem máquina não tem outra. Brr…

De III capitulo - Sob o signo da Tortura

O melhor episódio, este? Nem nos teus sonhos mais salmões selvagens, ómessa!
Roma anda desconjuntado - o último episódio foi tão pós-moderno que lembrava o coração de Camões - Pelo mundo em pedaços repartido. Um só problema: ali havia mais repartição que coração. Episódio de transição, isso sim, com cubículos de peep-show para cada parelha de intervenientes. Este episódio tinha por signo a tortura: a tortura do rapaz (devia ser ele o Daniel Cerqueira dos créditos, tinha carola de menino do Rio), a tortura de Servília, a tortura dos filhos de Voreno no campo de escravos. E também as torturas interiores: a de Timão, a prenunciar o regresso ao judaísmo (depois do desvio criminoso ao serviço de Átia), a de Voreno, a prenunciar o regresso ao vorenismo (depois do desvario diabólico ao serviço do Hades), a de Marco António (a prenunciar, falhada a sua arte militar - ele tinha razão quando dizia de César que “The man is a genius!”, mas não é o caso - à embriagadora sensualidade: Hello Cleo, here we come! Não gostei da substituição de Octávio por outro actor, embora compreenda que não havia muito mais soluções para o impasse.

Já agora, adianto uma definição possível dessa coisa infecta, mas útil, que dá pelo nome de pós-modernismo: uma sorte de cansaço narrativo, a par de um domínio virtuoso da técnica. Ou, pensando melhor, talvez o contrário: uma sorte de virtuosismo narrativo, mas impotente e entediado.

Roma 2 - na 2 à 2ª às 22h 60

A primeira série do Roma, sim, foi perfeita. Não conhecíamos Tito Pulo nem Lúcio Voreno, personagens inventadas vagamente aparentadas a Astérix e Obélix, o cerebral centurião e o colosso insensato; já conhecíamos, que remédio, Júlio César, Marco António, Cícero, Bruto… E a Roma que conhecíamos era sobretudo a da BBC, a única televisão que no tempo dos romanos era autorizada a filmá-los, pelo que o resultado saía sempre um bocado britânico: debates articulados, política hardcore, togas limpas e colunas brancas. Esta série vai beber noutras fontes: os peplum italianos dos anos 60 que, tal como os western spaghetti, têm uma visão mais suja do faroeste, e o Gladiador que fez Russell Crowe, que mostrava uma Roma mais cosmopolita e orientalizante do que as britcenas senatoriais davam a entender. Temos então duas premissas: a) Roma = Nova Iorque; b) Roma = suja e oriental, confusa. A partir do momento em que os verdadeiros heróis do filme (eu levei uns episódios a percebê-lo, confesso) são os plebeus, o foco da nossa atenção muda: o essencial é o que se passa nas ruas, entre o povoléu, as cenas entre os nobres tornam-se secundárias e acessórias. Às vezes, até nas casas de Átia ou Servília, o que faz um escravo é que. Um exemplo? Mesmo quando está em segundo plano, seguimos com o olhar a expressão facial da sinistra escrava-mor de Servília, que começou tão bela e nobre e acabou tão desgrenhada de espírito. Aliás, os servos são o espelho dos donos, às vezes funcionam mesmo como uma clarificação do animus destes. Eu adorava o humor e a inteligência das picardias entre Posca e César! Posca era a prova mesma de que César era boa gente (se é que se pode chamar “prova mesma” a uma ficção), e nunca os seus diálogos foram malignos ou desprovidos de brilho. Já a intriguista de Servília tem um ar de Imperador do Star Wars que não te digo nada.

O chato das narrativas históricas é que, em parte, já se sabe onde aquilo vai parar: Napoleão vai perder Waterloo, D. Carlos vai ser assassinado, Marco António vai perder-se nas areias movediças de uma obsessão doentia por Cleópatra. Ocasionalmente as histórias alternativas são mais interessantes, embora também (como tudo na vida) se arrisquem a ficar também previsíveis. O que não sabemos - e aí mora a emoção - é como as coisas vão chegar lá. Nesse sentido, na primeira série foi brilhante ao interligar a adaga de Bruto (facto histórico) à fúria de Servília (invenção) e fazer um final com montagem paralela à - não podia deixar de ser - Padrinhos 1, 2, 3, interligando a morte verdadeira de Júlio César com o suicídio da inventada Niobe.

Esta segunda série sabe que já abriu o jogo e sabe que a guerra civil que tem para contar é ainda mais feia que a anterior. Os antagonistas não têm a grandeza de César ou Pompeu, que embora rivais eram humanos no bom sentido da palavra. Marco António, Cleópatra, Servília, Bruto são (estão agora) humanos no mau sentido da palavra. E Octávio, um génio cruel que vai pôr tudo na ordem, é pouco glamoroso - daí em parte a sua ausência. Embora obviamente vá começar a aparecer mais. A produção tem um problema: como dar boas cenas a um rapazola e como tornar credível que os outros generais se lhe submetam?

Agora vamos ao que interessa. Na primeira série foi Tito Pulo que perdeu a alma e quase a cabeça; agora é Lúcio Voreno. Mas não há redenção que sempre dure. Ninguém quer um Tito Pulo sempre sensato e bem casado, e Lúcio Voreno tem de voltar a ser boa pessoa. Talvez até case com a irmã de Niobe, no mesmo episódio em que Tito perde a amada (snif). Ao contrário de Elisabeth Taylor e Richard Burton, perdão, Cleópatra e Marco António, a família e amigos de Lúcio Voreno têm tudo em aberto. Vantagem, infinita vantagem, de não ser figura histórica.

(Continua)