Romance

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Caía a noite, o mundo dormia,
o tempo era uma névoa sem fim
Ela falava, perorava, ela insistia,
delirava febril como que num trance
e depois comentava (mais para si que para mim):
Isto dava um bom princípio de romance.

Passeávamos juntos pelas alas do palácio
Passávamos a noite em todos os quartos,
patinávamos nos corredores, pintando a manta,
lutávamos felizes, até altas horas brincávamos,
fazíamos amor, até ficarmos fartos
e depois ela dizia, com sua voz de um só lance:
Isto dava um bom princípio de romance.

Bebíamos vinho, contávamos histórias
ríamos à socapa, ou às gargalhadas,
trocávamos beijos, afagos, abraços
em delírio tropeçávamos
em nossos próprios passos.
E por fim ela dizia, mirando-me de relance:
Isto dava um bom princípio de romance.

Escrevíamos, rasgávamos, líamos, comentávamos,
rabiscávamos monstruosidades grossas e largas,
debitávamos parágrafos, calcinando os caracteres
escrevíamos frases fúteis, profundas, amargas,
dóceis, indomáveis, ocas ou de longo alcance
e logo ela murmurava, com seu perfume a malmequer:
Isto dava um bom princípio de romance.

Passeávamos noite fora, equilibristas sem rede
pássaros em busca de um local para pousar
o mundo era um inferno e o cemitério era perto
mas isso não era razão para não satisfazer a sede
um Jameson com gelo, um gin tonic ao luar
tomávamos um trago num bar deserto
e por fim ela dizia: Pena não haver quem dance
porque, isso sim, dava um belíssimo
princípio de romance.

(Inédito 2007)

A verdade a que temos direito

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“Há 10 anos que não era pago para ir à televisão”

Rui Zink diz que recebe um “banho de dinheiro”

Agostinho Santos/JN 12/5/07 (foto Pedro Correia/Arquivo JN)

Pedro Correia/JN

Dez anos depois de “A noite da má língua” (SIC), Rui Zink regressa à televisão. Aceitou porque lhe pagaram bem e porque não vê mal nenhum no programa “A bela e o mestre”, da TVI.Garante que sempre se pôs a leste dos “reality shows” e que nunca os elogiou nem nunca os criticou. Agora, diz que esses programas já fazem parte do dia-a-dia dos portugueses e que quem os critica quer é fazer parte do espectáculo. Por essas e outras razões, respondeu positivamente quando o convidaram a integrar o júri do programa.

Aceitou integrar o júri de “A bela e o mestre” essencialmente por uma questão de dinheiro. Rui Zink que se sentou do princípio ao fim (o programa termina amanhã) no programa da TVI, admitiu, ao JN, que o convite foi aliciante e curioso. Pois surgiu 10 anos depois de ter participado na “Noite da má língua” e após “muitas borlas” em tudo quanto é sítio, desde conferências em escolas, seminários e instituições. Defende que o programa não tem humilhado, até aqui, as mulheres e diz que seria bom, muito bom, que se discutisse a filosofia não deste, mas de todos os “reality shows” que hoje já fazem parte da mobília da nossa sociedade.

Jornal de Notícias| A sua presença no júri de um programa com as características de “A bela e o mestre” surpreendeu muita gente. Ver ali um escritor, um intelectual, do princípio ao fim, causa alguma admiração. Porque aceitou?
Rui Zink| Aceitei, em primeiro lugar, porque em 10 anos não me faziam uma proposta paga para aparecer na televisão. Apareço em muitos sítios, mas é tudo à borla, em escolas, bibliotecas, seminários, instituições. Ninguém paga. Depois aceitei porque acho interessante que seja necessário o aparecimento de um “reality show” para pagar o trabalho a um escritor, a um intelectual, quando na verdade quem devia pagar não paga.

É bem pago para integrar o júri?
Sim, sim, considero-me bem pago. Para mim é um “banho de dinheiro”.

Foi então uma questão de dinheiro?
Ajudou, mas não foi só isso. Posso dizer-lhe que acho que tem sido uma experiência interessante, tenho gostado bastante.

Em que aspecto?
Olhe, vivemos todos numa sociedade em que todos trabalham em fábricas de armamento, mas depois, cá fora, vamos todos para as manifestações a favor da paz. Sempre me espantou como é que as pessoas se vendem, como a maioria não tem espinha dorsal, e, como tal, eu quis ver como era esse lado. Aceitei também por isso, quis ver como é dizer uma coisa e fazer outra.

E quem faz isso?
Todos. Da Esquerda à Direita, são todos moralistas de vão de escada e eu quis ver e sentir essa realidade.

E viu e sentiu?
Sim, vi e senti e chego à conclusão de que, afinal, é bom. Ganha-se dinheiro e fica-se mais ligeiro na cabeça.

Acha que o programa tem qualidade e que não maltrata as mulheres?
O programa não deve ser avaliado isoladamente. Ele é um “reality show”, igual a muitos outros que têm vindo a realizar-se ao longo dos anos, e que, hoje, fazem parte da mobília da nossa sociedade. Já são até referenciados nos manuais escolares. Se calhar seria bom que se discutisse a filosofia dos “reality shows” na generalidade. Seria bom discutir e analisar os conteúdos de programas desta natureza tão aviltantes para todos, independentemente de sermos homens ou mulheres. O resto é confundir o essencial com o acessório.

A sua ex-colega de júri não esteve até ao fim. Por que é que se manteve até ao fim?

Em princípio, tenho por hábito cumprir os contratos até ao fim. A não ser que surgisse assim uma coisa grave, do outro mundo… Quanto à saída de Clara Pinto Correia, é tão engraçada a saída como a sua entrada. O encanto da Clara é ser imprevisível e nada na Clara me surpreende, ela é mesmo assim e pronto!

Felizes da Fé

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Os Felizes da Fé nasceram em 1985 e são eternos. Além de eternos, são invisíveis, omnipresentes, omnipotentes e não têm medo de ninguém. Eu gosto muito dos Felizes. Os Felizes são meus amigos. São os verdadeiros inventores do Non made. São boa gente. O Non made é uma forma de intervenção adequada ao verdadeiro espírito do século XXI. Os felizes são Made in Século XX mas, como são perversos polimorfos, adaptaram-se bem ao novo clima geo-estratégico. Os Felizes gostam muito de geo-estratégia e comem sempre a sua porção ao pequeno-almoço. Antigamente alguns Felizes comiam criancinhas mas depois, com os sucessivos escândalos e afins, adaptaram-se e agora comem geo-estratégia. Os Felizes estão sempre a fazer não-coisas. Muita gente confunde o fazer não-coisas com o não-fazer nada, quando são exactamente o oposto. Só que, claro, a olho nu… As pessoas deviam ter os olhos mais vestidos, assim já veriam melhor. A ver se nos entendemos: o non made é o único made verdadeiramente made in Portugal. Sobretudo porque o non made é um hiper-upgrade do ready made.

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