Romance

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Caía a noite, o mundo dormia,
o tempo era uma névoa sem fim
Ela falava, perorava, ela insistia,
delirava febril como que num trance
e depois comentava (mais para si que para mim):
Isto dava um bom princípio de romance.

Passeávamos juntos pelas alas do palácio
Passávamos a noite em todos os quartos,
patinávamos nos corredores, pintando a manta,
lutávamos felizes, até altas horas brincávamos,
fazíamos amor, até ficarmos fartos
e depois ela dizia, com sua voz de um só lance:
Isto dava um bom princípio de romance.

Bebíamos vinho, contávamos histórias
ríamos à socapa, ou às gargalhadas,
trocávamos beijos, afagos, abraços
em delírio tropeçávamos
em nossos próprios passos.
E por fim ela dizia, mirando-me de relance:
Isto dava um bom princípio de romance.

Escrevíamos, rasgávamos, líamos, comentávamos,
rabiscávamos monstruosidades grossas e largas,
debitávamos parágrafos, calcinando os caracteres
escrevíamos frases fúteis, profundas, amargas,
dóceis, indomáveis, ocas ou de longo alcance
e logo ela murmurava, com seu perfume a malmequer:
Isto dava um bom princípio de romance.

Passeávamos noite fora, equilibristas sem rede
pássaros em busca de um local para pousar
o mundo era um inferno e o cemitério era perto
mas isso não era razão para não satisfazer a sede
um Jameson com gelo, um gin tonic ao luar
tomávamos um trago num bar deserto
e por fim ela dizia: Pena não haver quem dance
porque, isso sim, dava um belíssimo
princípio de romance.

(Inédito 2007)

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