Love Craft
Novidades 5 comentários »Tal como os lutadores profissionais estão como zombies entre os combates – e essa espera pode durar meses – também ele se sentia desempregado, apenas meio vivo, entre cada noite. Não, nem sempre sonhava com ela, aliás nem sabia quem “ela” era, e muitas vezes mesmo sem se recordar de pormenores sabia que o sonho tinha sido um pesadelo e que acordava mais cansado do que quando se deitara. Mas sabia que só quando dormia se encontrava – fosse com o que fosse. Com “ela”, com os monstros lovecraftianos que havia na sua psique, com a essência divina da aventura humana, com a verdadeira e secreta geometria do planeta. De dia, pálida sombra de uma coisa qualquer. Mas atenção, não era só de dia. Não se tratava aqui de nenhum culto romântico da “noite” ou de álcoois tardios no Bairro Alto. Era o sono, apenas o sono. Napoleão justificava a insónia com o não querer que o império lhe escapasse por entre os dedos enquanto dormia. Com ele era o contrário: sabia que a verdadeira vida lhe escapasse por entre os dedos enquanto estava acordado.
Que, depois, mal ou nada se lembrasse dos sonhos, era apenas um pormenor, lamentável (por uma questão de satisfação), mas sem grande importância.
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