Mais um sonho, agora em Dartmouth
Novidades 6 comentários »um tipo diz: estou com 47.
Eu murmuro: é também a minha idade.
E ele: mas eu tecnicamente tenho 49.
Como assim?
Está quase – faltam só dois anos.
Eu quase me irrito com a trapaça: ah, isso também a mim!
(Mais velho aqui significa mais sábio. E acho que ele se está a fazer à minha mulher.)
O comboio pára. Vai ser um looongo dia até à noite. E não só: há que fazer os planos. As reservas. Marcar território.
Penso: e se pedir o telefone a toda a gente? É uma boa ideia, o problema é que dá demasiada bandeira. Mas não há alternativa. Tenho de arranjar uma maneira de, à noite, ir tentar as capelinhas.
No chão está um boné meu, virado ao contrário, com cartas lá dentro – e também, reparo agora, uma carteira de preservativo. Por um lado é um sinal – só que não sei se fui eu que deixei aquele sinal. Começo a irritar-me de novo: e se eu fico a seco e a minha mulher vai com o outro gajo? Sei que não é correcto eu querer, para mim, o que nela me provoca ciúmes, mas o que posso eu fazer? É um sonho! É a porra de um sonho. E, ao menos aqui, a correcção não é propriamente uma das principais preocupações do senhor Arquitecto.
Agora o cenário muda.
O meu pai está na casa antiga, meio pesado, a tentar levantar-se. Vejo-me a ajudá-lo, e ele a desdobrar-se em dois: a parte sã, a parte insana. Borrou-se mais uma vez.
A minha mãe está na cadeira de rodas. Dois velhos à espera do grande nada.
E eu a ver.
E eu a ver passar comboios.
E eu dentro de um comboio parado entre duas fronteiras. À espera que arranque.
E os sentimentos (como sói acontecer aos sentimentos) conflituam: por um lado quero que a porra do comboio arranque, por outro lado sinto-me estupidamente estúpido.
Ah! Jogavam que eu ia a dizer “culpado”? Podem julgar sentados.
Comentários Recentes