Na ressaca dos Óscares

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Falemos antes das eleições americanas, está bem?

Há quem ache rebelde eleger um “negro”. Infelizmente o que acontece é que preferem o negro à loura. Ou seja: o machismo é mais forte que o racismo. Fosse Hillary um homem e seria fácil de ver, pelo seu currículo, que é a melhor candidata: experiente, inteligente, pragmática. Brilhante. Combativa. Atomatada. E, sim, esposa, do melhor – ou menos mau, se preferirem – Presidente norte-americano dos últimos quarenta anos. Bill Clinton foi bom para os EUA e para o mundo, à excepção (sim, também a mim custa a engolir) da Sérvia. Mas toda a gente bateu na Sérvia, portanto volta Bill, estás semi-perdoado. Foi o Presidente que deu a mão a Timor – muito diferente do Kosovo, porque este não fora invadido trinta anos antes. Clinton-gajo foi bom para a economia americana e mundial, bom para a sociedade, bom para as minorias cívicas, bom para as aberturas de espírito.

Clinton-gaja não precisa de mais provas de que pensa – e age, desde há quarenta anos – pela própria cabeça. E, sim, seria bom ter o marido por conselheiro. Atrás de uma grande mulher estaria, enfim, um homem. Infelizmente anda tudo encantado com um tipo – que até pode ser porreiro – cujos únicos atributos conhecidos são: a) ter boa pinta, b) ser gajo, c) ter um grande e vácuo slogan: “Yes we can”.

Um slogan tão bom que José Sócrates há dias o copiou – ou alguém por ele – provando que, de facto, foi mesmo estudante: “Sim, nozes podemos”. Enfim, sempre é uma variante da força tranquila guterriano-mitterrandiana…

Obama não prova que os democratas americanos finalmente evoluíram. Prova apenas que descobriram, com dez anos de atraso, o charme de um Tony Blair bronzeado como quem passou umas férias em Albufeira. Não digo isto com alegria, mas o mundo dormiria melhor se, amanhã, descobríssemos que tinha sido Obama a raptar a Maddie.

Infelizmente, no such luck. Les Oscars sont faits – e nós também.  

Las Vegas

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Falso alarme.

 Estranho, ter uma mulher velha

 negra e pobre

a ressonar ao nosso lado

no autocarro de dois andares

“double deck”, dizem

como em “deck of cards”.

De vez em quando ela funga

e depois volta a ressonar

funga e ressona

deve estar bem cansada

velha, triste e cansada

ressonando e fungando

ao longo da longa

Las Vegas Boulevard

As palmeiras, esparsas

fazem o ukelele no meio

da estrada

enquanto o vento rebola

e saltita

pela estrada fora.

“Wedding chapels”, dizem

os letreiros apagados

Bolos de casamento

esquecidos pelo tempo.

O vento ulula feito breakdancer

as palmeiras de cabeleira verde

fazem-se coquettes

penhores “24 hrs open” 

e a Mon Bel Ami wed

ding chapel

e o deserto aproximam-se e,

milagre,

a velha gorda e negra

parou de ressonar.

(Falso alarme.) 

O livro

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O livro é um poço sem fundo

um poço que não se cala

com um eco que por vezes irrita

mas antes mouco que oco.

Um poço que fala (se desunha)

um poço que gatafunha (e grita):

“O príncipe tem orelhas de burro!

A realidade tem orelhas de burro!”

nanoconto

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Minha vida, ai ai… Ontem fado, hoje anagrama.

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