Soneto camoniano

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Em todo este errar por entre os humanos

Fui pouco a pouco deixando de sentir

Não que assim tenha reparado os danos

Mas, a descer, a rua custa menos a subir.

Muito amei – não sei se assim fui amado

Desleixei o tempo, com a folha fui caindo

Andei um tanto a dar para o desequilibrado

Torci um pé, o outro, ao destino fui fugindo.

Por mui perfeitos que sejam nossos planos

Bem natural é que a água para o mar corra

Logo, se de amor não vi senão breves enganos

Confesso que já não dói – e ainda bem, porra!

(Pois ao fim de tantos e tantos e tantos anos

Até para amar me vai já faltando a pachorra.)

Necessidades

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Ó pai vou fazer cocó e

quando acabar de fazer cocó

quero uma nintendo

Eu vou levar muito tempo a fazer cocó, por isso tens tempo

de me comprar uma nintendo

Vou fazer cocó e quando acabar quero ver

uma nintendo à minha frente

 

Entrementes nós vemos

o homem-aranha cometendo

actos heróicos

na janela do nosso quarto interior

 

Vou fazer cocó só uma criança poderia

dar esta natureza de informação

e ser tão querida ao fazê-lo

E quando acabar quero uma nintendo

 
Há raparigas

mais crescidas

que também são muito queridas quando

no restaurante

notificam parceiro de refeição

e restante povo

Vou fazer xixi

 volto já

mas nem sempre voltam

Quem sabe que segredos se escondem

numa casa de banho

O Sombra sabe

 

Nunca dizem cocó, ao menos isso

Nem querem, tanto quanto sei

uma nintendo

 

Há também rapazes

já homens

que dizem

Vou cagar

E esses também não querem uma nintendo

Quando muito querem

uma coisa mais modesta

Conquistar o mundo

Destruir o mundo

ou, pior

Emoldurar o mundo

 
Entrementes o nosso herói diz

Já acabei

mas nós não ligamos

estamos a escrever o poema

Estamos a tratar do irs

Estamos a ver

na única janela do nosso quarto

o homem-aranha lutar contra o dr. octopus

o bem a vencer o mal

 
Mas ele insiste, persiste, ele é

já em embrião

um homem

que consiste

daqueles que podem ser administradores

ou coisa pior

Já acaaaabeeeei

E nós lá vamos, cantando e rindo, pressurosos

fatigados mas pressurosos

cumprir a função de pais

 
Ele é que não desiste e

enquanto nós desenrolamos o papel

repete, baixinho mas clarinho

Ó pai quero uma nintendo

Anda, Pacheco!

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Pelas leis da natureza, estamos a chegar ao fim do tempo dos dinossauros literários, para quem a palavra tinha um valor supremo, em ambas as vertentes da expressão. Nada de lágrimas, crianças, sobretudo não de crocodilo, que não passa de um aprendiz de dinossauro. Luiz Pacheco teve vida longa e cheia (1925-2008, é obra). Há décadas que proclamavam (e ele, malandro, alinhava no jogo) a sua morte próxima. Ao contrário do que se pensa, foi um escritor feliz – não lhe faltaram admiradores em vida e, suspeito, não lhe faltarão em morte. Escreveu quase sempre textos curtos, depois recolhidos em volumes maiores ou menores. O seu mais denso livro intitula-se Pacheco vs. Cesariny e é um caso sério na história da literatura portuguesa: um romance epistolar, feito de colagens, uma ficção com personagens reais da vida artística e literária dos anos 50-60. Mas, tal como o argentino Jorge Luís Borges, o português Luiz Pacheco não precisa de textos grandes para assinar grandes textos: grandes textos com lugar cativo na literatura. Narrativas como “O Teodolito”, “O libertino passeia por Braga, a idólatra, todo o seu esplendor” e “Comunidade” são e serão lidas e relidas por sucessivas imensas minorias em sucessivas gerações. Tinha uma língua afiada e, sob o manto diáfano do libertino, repousava um moralista. Era ingrato com os amigos e generoso com estranhos, sobretudo no que à coisa literária tocava. E assim se deve ser. Num país de cavaleiros das letras, Luiz Pacheco andava a pé: achava que do chão se via melhor a realidade. Quem disser que “foi o nosso escritor maldito”, mente. Para isso há outros. O Luiz Pacheco foi o nosso escritor bendito. Ámen.

Feliz ano novo, Camila

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Estava triste, deprimido. Último dia do ano. E ela não só levara a casa, levara também os filhos.

Pensou dar um tiro na cabeça. Mas na cabeça onde? Têmpora, boca, glóbulo ocular? Não deu.

Telefonou para a ex-mulher. Não deu. Telefonou para uma potencial cama. Não deu. Telefonou então para a primeira namorada. (A primeira namorada a sério, amor mesmo; de juventude, certo, mas, ainda assim, amor, amor de verdade.)

Milagre da neotecnologia e, mais especificamente, do roaming, ela atendeu. Estava em Córdova, a 600 Km dele.

“Sozinha?”, inquiriu a medo.

“Sozinha, sim.” Também ela era divorciada, claro, e o último namorado uma besta.

“E se eu fosse agora aí ter contigo?”

“Agora?”

“Agora.”

“És louco”, riu ela. E no seu riso ele leu, quase cem por cento seguro, um convite.

Meteu-se a caminho. Seiscentos quilómetros fazem-se em quatro horas.

Perto de Calavera del Reyno, ao Km 314, espetou-se.

Morreu feliz, como poucos (homens ou mulheres) se podem gabar.

A caminho do amor redentor.

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