Dramas do ensino de hoje
Novidades 4 comentários »É muito difícil explicar aos jovens que o amor é uma coisa como que assim a dar para o indirecta.
É muito difícil explicar aos jovens que o amor é uma coisa como que assim a dar para o indirecta.
E ao terceiro dia Jesus ressuscitou, é verdade. Mas poderia ter sido ao segundo, se já existisse Guronsan.
Dren a Dren, vai a galinha calando o bico.
Segundo alguns textos apócrifos, o cristianismo nasceu quando um judeu decidiu ir para o deserto sem chapéu na cabeça.
É certo que não é verdade que mais vale uma mentira bem esgalhada que uma verdade desenxaibida. Mas é bem esgalhado.
De acordo com algumas seitas agnósticas, Deus fez a obra e depois olhou para a obra - tudo isso foi assim mesmo que aconteceu. Só que depois, como apesar de ser inventivo tinha fraca capacidade de concentração, foi embora entreter-se com outra coisa qualquer.
Um dos segredos de uma vida bem vivida é saber que de noite todos os gatos são panteras.
A verdade gosta de se apresentar nua e crua. Coisa de selvagens, a verdade, não é?
O respeitinho é muito bonito. Não é pois de admirar que ainda hoje seja a cirurgia plástica dos pobres.
E se o amor for mesmo uma arma de destruição maciça? E se a salvação da humanidade (isto se quisermos ter algum futuro) fosse nunca mais irmos para a cama uns com os outros?
Se Beckett fosse vivo, em vez de À Espera de Godot era bem capaz de escrever À Espera de Madeleine. Apesar de todo o circo, há algo de comovente em ter meio mundo suspenso do destino de uma criança. A última vez que isso aconteceu foi, salvo erro, há dois mil anos.
A quem põe em causa a existência de Deus devemos sempre lembrar que está a brincar com o fogo. Caso isto não resulte, lembrar que, se não for o fogo, é a fogueira.

O livro A Espera foi publicado pela Editorial Teorema este mês.
É um belíssimo livro com todo o humor e ironia de Rui Zink.
Caía a noite, o mundo dormia,
o tempo era uma névoa sem fim
Ela falava, perorava, ela insistia,
delirava febril como que num trance
e depois comentava (mais para si que para mim):
Isto dava um bom princípio de romance.
Passeávamos juntos pelas alas do palácio
Passávamos a noite em todos os quartos,
patinávamos nos corredores, pintando a manta,
lutávamos felizes, até altas horas brincávamos,
fazíamos amor, até ficarmos fartos
e depois ela dizia, com sua voz de um só lance:
Isto dava um bom princípio de romance.
Bebíamos vinho, contávamos histórias
ríamos à socapa, ou às gargalhadas,
trocávamos beijos, afagos, abraços
em delírio tropeçávamos
em nossos próprios passos.
E por fim ela dizia, mirando-me de relance:
Isto dava um bom princípio de romance.
Escrevíamos, rasgávamos, líamos, comentávamos,
rabiscávamos monstruosidades grossas e largas,
debitávamos parágrafos, calcinando os caracteres
escrevíamos frases fúteis, profundas, amargas,
dóceis, indomáveis, ocas ou de longo alcance
e logo ela murmurava, com seu perfume a malmequer:
Isto dava um bom princípio de romance.
Passeávamos noite fora, equilibristas sem rede
pássaros em busca de um local para pousar
o mundo era um inferno e o cemitério era perto
mas isso não era razão para não satisfazer a sede
um Jameson com gelo, um gin tonic ao luar
tomávamos um trago num bar deserto
e por fim ela dizia: Pena não haver quem dance
porque, isso sim, dava um belíssimo
princípio de romance.
(Inédito 2007)
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